terça-feira, 29 de junho de 2010

A “Meia-Hora”: Introdução ao silêncio!


A “Meia-Hora” na Congregação Cristã é um intervalo de vinte minutos antes do “Hino do Silêncio” onde uma organista interpreta os hinos do hinário em andamento “largo”.

Ao contrário do que muitos pensam, a “Meia-Hora” não é um estágio onde organistas iniciantes praticam seu aprendizado. Após conhecer um pouco sobre essa prática litúrgica, verão porque defendo que apenas organistas oficializadas deveriam praticá-la. Por hora vamos tentar compreender o significado, ou melhor, a necessidade da “Meia-Hora” nos eventos sacros dentro da igreja.

Geralmente, os portões da congregação são abertos uma hora antes do início de qualquer serviço sacro. É comum virmos que há pessoas que ficam esperando eles serem abertos, ou seja, chegam com mais de uma hora de antecedência ao culto, até mesmo nas Terças-Feiras. Obviamente são pessoas idosas. No entanto, é com, aproximadamente, trinta minutos antes dos cultos que a massa começa a chegar para o mesmo. Se repararmos bem, e por alguns dias pôr atenção nisso, dá para saber que cada “nicho”, digamos assim, chega sempre em seu horário costumeiro. Vamos usar como exemplo um tradicional culto paulistano de domingo: Os idosos sempre são os primeiros (das 06h30 às 07h00), seguido por alguns músicos responsáveis (das 07h00 às 07h15), que precisam chegar a tempo de se organizar; depois chega a maioria da irmandade, homens com suas mulheres e crianças (das 07h10 às 07h25); e, por fim, chegam os jovens: geralmente começam a chegar durante a execução do “Hino do Silêncio” e até o “amém” final pode ser que ainda chegue algum.

Pois bem, neste intervalo, vejam o que temos: Os idosos saudando e falando com todos dentro da nave da igreja ou nos corredores externos, geralmente em voz alta, pois já estão com a audição prejudicada, e gostam de ouvir a própria voz para ter certeza que o outro também ouviu. Os músicos fazem barulhos ao se acomodar em seus bancos com os estojos dos instrumentos, ao tirar os instrumentos e os “pendurarem” e, alguns deles, ainda os afinam. Fora a conversa com os amigos da “classe” instrumental que representam. As famílias que vem após, com suas mulheres e crianças eufóricas, que antes de se acomodarem, vão até os sanitários e já providenciam papel para passar o culto desenhando neles; sem falar nos que trazem copos descartáveis com água para dentro da igreja. Ainda temos os bebês, que, neste horário, costumam passar de mãos em mãos das irmãs que insistem em segurá-los um pouco ali mesmo, antes, durante e depois do culto. Aí chegam os jovens! A situação costuma ser complicada se o futebol de domingo foi às 16h00 neste dia.

Como vimos, o espaço de culto vai além de sua finalidade principal. É lugar de integração, interação, encontros e reencontros. Não dá para evitar isso, principalmente na cultura latina e, sobretudo, na realidade protestante, onde o coletivismo e a fraternidade são incentivados a todo o momento. Mas, ainda assim, é preciso manter a reverência na igreja, ainda que sob alguns sacrifícios. Se o silêncio é a introdução a reverência, a “Meia-Hora” é a introdução ao silêncio.

Andando por aí e conversando com algumas organistas da minha comum, fui informado de que, geralmente, são duas as formas de interpretar os hinos na “Meia-Hora”: Em ambas, deve ser entoado em compasso largo e em volume moderado; ora conservam-se os mesmos valores ora prolonga-se a nota referente à última frase da estrofe. Segunda elas, pode-se também, na mesma estrofe, promover uma elevação de oitava, ou seja, passando do normal para uma oitava acima. Todavia o hino não deve ficar irreconhecível.

Com essas interpretações, a música ganha uma característica melancólica. Sendo tocada lentamente e com suavidade, força os ouvidos a atentarem para ouvi-la, e a conseqüência é o silêncio, com ele a reverência e a comunhão. Ao ouvir o som da música na “Meia-Hora”, o fiel deve imediatamente procurar fazer menos movimento possível. Deve se acomodar em seu lugar e fizer sua oração particular. Depois pode fazer a tradicional leitura bíblica em silêncio ou acompanhar os hinos com o hinário, mas sem cantar, ou “resmungar” a melodia. À medida que outros fiéis vão se achegando, percebendo o silêncio e a reverência, se cuidarão para entrar neste clima.

Deve-se resgatar esta ordem. O silêncio na igreja é algo fundamental para sua idoneidade. E é algo que os protestantes, em geral, estão abandonando, desde os mais tradicionais aos neo-pentecostais, que costumam regular a bateria da banda um pouco antes do culto. Precisamos aprender com os católicos, pois, salve exceções, sabem guardar o silêncio na igreja. Na Congregação Cristã, algo que é sempre elogiado por pessoas que visitam a igreja são a “ordem”, o silêncio e a reverência nos cultos; isso deve ser sempre lembrado a irmandade. Pouco se fala em manter o silêncio nos cultos.

Convido os leitores a experimentarem mais a fundo este rico recurso que possuímos: a “Meia-Hora”. Cheguem mais cedo à igreja. Prestem bastante atenção na música e no andamento. Observem tudo em silêncio. Após a “Meia-Hora”, acompanhem o “Hino do silêncio” e depois participem do culto. Certamente notarão a diferença. Cultivem a integração e o bom papo depois do culto. No culto, prestigiem o silêncio ao som de uma boa “Meia-Hora”.

Ricardo Oliveira

6 comentários:

  1. Bom observador, moço!
    Seu texto tá tão bacana que deveria ser lido pra irmandade toda... Principalmente no que diz respeito ao convite para o silêncio...

    Deus abençoe!

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  2. Ontem pude observar bem. Cheguei na central da minha região antes da meia hora. Já havia muitos idosos, depois a igreja foi recebendo os mais jovens que chegavam até a hora do testemunho. E durante a meia hora? Conversa daqui e ali, e em tom alto, por se tratar de idosos. Sinto na pele isso, a meia hora não ser ouvida com todo o seu silêncio.

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  3. Muito edificante. Bom se todas as igrejas tambem tivessem seu Meia Hora...

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Muito bom!! Quando as reuniões de jovens na minha comum ainda eram de domingo, eu fazia a meia hora com a igreja vazia, pois os jovens chegavam as 9h25. Agora a reunião (culto misto) é de sexta-feira 20h, então há mais "apreciadores", porém também mais "barulho".
    Se TODOS tivessem acesso à esse texto... talvez essa "introdução ao culto" fosse melhor aproveitada.
    PARABÉNS Ricardo!!

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  6. Realmente a 'meia hora' é uma jóia. Pena que na maioria dos lugares serve para encobrir o barulho.

    As crianças serim um problema resolvido se houve um espaço interativo para elas. Pois, como você mesmo disse, passarão o culto desenhando. Por que não desenhar num local só pra elas?

    O costume da meia hora é um costume das igrejas pentecostais americanas, e tal como nós aceitamos, servia para colocar - comunhão - espiritualidade no recinto.

    Sou apreciador da meia hora, mesmo tendo algumas organistas que tocam os hinos em ritmos iguais às execuções regulares.

    Bom texto.

    Abraço.

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