terça-feira, 30 de março de 2010

A Congregação Cristã e o Presbiterianismo


Poucos sabem, mas quando Louis Francescon se desligou da Primeira Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, se tornou congregacionalista radical.

O congregacionalismo, em tese, não deveria impactar em grandes desvios doutrinários; a fórmula congregacional de uma instituição se baseia no princípio de que a igreja local é totalmente autônoma, em questões administrativas, culturais e comportamentais, não se subordinando a nenhuma organização superior a ela.

É possível imaginar porque Francescon se apaixonou pela matriz congregacionalista: Ele conhecera o Presbiterianismo, e junto a ele, todo o seu burocrático sistema. Vou tentar mostrar neste artigo, o que fez com que ele aderisse ao congregacionalismo radicalista nos EUA e, não muito tempo depois, se desiludiu com o mesmo, voltando a creditar ao presbiterianismo. Aliás, vale observar, que ele “aprendeu” nos EUA e aplicou aqui no Brasil, pois, não podemos negar que ele era um missionário ainda inexperiente.

A matriz da Igreja Presbiteriana, assim como na Congregação Cristã, é baseada fortemente em conselhos de presbíteros (hoje, pastores para a IP e Anciãos para a CC); pequenos conselhos formam um presbitério que, juntos, formam um sínodo que, por sua vez reunidos, formam o Supremo Concilio. Francescon teve contato com este sistema em sua primeira denominação como membro. A principal base do presbiterianismo é opor-se ao episcopado, criado pela Igreja Católica e copiado pelas igrejas Anglicanas e Metodistas, respectivamente, que, na ocasião da efervescência espiritual nos EUA estavam entre as principais denominações. Embora não se tem nada em mãos sobre o que Francescon dizia do presbiterianismo, é possível imaginar sua desilusão com o mesmo: Ele foi primeiro Diácono e depois Presbítero, que também exerce a função de tesoureiro. Ninguém melhor do que um ex-diácono e presbítero para saber dos problemas burocráticos de um sistema eclesial. Um dos grandes problemas que Francescon enfrentou na recente Igreja Presbiteriana Italiana foi com relação ao repasse de verbas provenientes dos dízimos dos fiéis. Repassava-se uma quantidade, que se fosse aplicada a igreja local, seria mais bem aproveitada, pois, era uma igreja com aproximadamente quarenta membros recém convertidos, pobres e imigrantes, quase que incapazes de se auto-sustentarem, além, é claro, do alto salário do pastor, pago pela associação, que por sua vez tirava dos repasses.

Outro grande problema que Francescon teve com o presbiterianismo Foi com relação à reação da igreja a sua revelação acerca do batismo por imersão. A Igreja Presbiteriana sempre batizou por aspersão ou efusão, nunca por imersão. Como presbítero, Francescon se encontrou sem o mínimo de autonomia para assuntos doutrinários; tanto é que ao invés de insistir no assunto, preferiu desligar-se, quando fora batizado por imersão.

Evidentemente, outros fatores contribuíram para que Louis Francescon passasse a observar a fundo o congregacionalismo: os membros presbiterianos de origem valdense e o pregador autônomo Michelli Nardi. Sabemos que os Valdenses andavam pelas montanhas da Itália desprovidos de qualquer sistema eclesiástico ou estatutos. Quanto a Michelli Nardi, havia se desligado da Italian Evangelical Church por razões pessoais e estava se dedicando a pregação espontânea e autônoma do evangelho, no qual, alcançou Francescon, e tornou-se depois seu modelo de missionário.

Após a formação da Assemblea Cristiana di Chicago e sua consolidação, diversos membros tornaram-se missionários, incumbidos de levar testemunho de sua fé e crença a seus familiares, amigos e patrícios, espalhados pelos EUA, América do Sul e Itália. Antes mesmo da igreja se consolidar no Brasil, como exemplo, ela já havia chegado a diversas colônias italianas americanas, de norte a sul, leste a oeste, cada qual com sua própria autonomia administrativa, como idealizara Francescon.

Entre as décadas de 10 e 20, ocorreram fatos que mudaram os destinos das congregações independentes nos EUA. Enquanto Francescon se ocupava com a próspera obra no Brasil, influências foram provocando desvios doutrinários nas igrejas americanas. Tanto, que em sua autobiografia, Francescon diz: “(...) sempre que voltava a América do Norte, encontrava novidades entre os irmãos, diferente do que aprenderam no princípio.” Todavia, o que o entristeceu profundamente foi o fato de muitas congregações italianas locais terem se filiado a organizações evangélicas diversas, ou seja, se evitava o burocrático sistema presbiteriano a fim de conceder livre ação do Espírito Santo à igreja local, porque se filiar a outras organizações que em nada tinham a ver com as igrejas do movimento pentecostal italiano? Acontecido esse fato, Francescon tentou, tardiamente, criar um conselho, ainda que com pouca autonomia, em 1927, onde foi definido os 12 artigos de fé e aceito pela maioria das igrejas provenientes do “Movimento Italiano”. Apesar da adesão a Confissão de Fé, os desvios doutrinários eram evidentes, e isso fez com que Francescon se isolasse, cooperando com algumas pequenas congregações locais, com a (já) Congregazione Cristiana di Chicago e com a Congregação Cristã no Brasil.

Eu sei, os leitores devem estar se perguntando: Porque as igrejas no Brasil aderiram ao presbiterianismo radical, como se opunha Francescon? A resposta é bem simples: Porque ele aprendeu nos EUA e aplicou aqui. Notem que até 1930, as igrejas no Brasil eram plenamente étnicas e voltadas em sua maioria para as colônias paulistas. Ainda que existissem igrejas em outros lugares, o atendimento a elas era feito por anciões de São Paulo, logo, não se experimentou o congregacionalismo. Francescon fez menção ao crescimento material e espiritual com certa “empolgação” em sua autobiografia, e ainda acrescentou: “A cidade de São Paulo possui uma administração formada por Presidente, Secretário e Tesoureiro, incumbidos pela parte material, além de um conselho de anciãos que se reúnem semanalmente na casa de oração do Brás para buscar a guia de Deus e tratar de assuntos relacionados às igrejas locais”.
O que se observa, é que se evitou no Brasil o que aconteceu nos EUA. Não houve tempo e brechas para desvios doutrinários entre as igrejas locais ou mesmo incompatibilidade administrativa. Por outro lado, a insistência em sempre buscar o conselho de Deus para qualquer decisão, evitou que a burocracia sistemática presbiteriana prevalecesse. Neste caso, a CCB está organizada no sistema eclesial presbiteriano, mas com o mínimo de burocracia possível. De repente, Francescon observou que, submetendo-se ao máximo à vontade de Deus, o Espírito Santo teria livre curso nas igrejas, mas respeitando-se ao teor doutrinário e a ordem administrativa. Não podemos negar que, de forma geral, isso tem prevalecido.

Anos mais tarde, em 1980, o presbiterianismo foi restaurado em algumas congregações americanas independentes, com a adesão de três igrejas: Corona, Chicago e Los Angeles. Hoje já são mais de cem congregações e pontos de pregação que integram a Christian Congregation in the United States, além da Christian Congregation of Chicago, que permanece congregacionalista irredutível, apesar de estar em comunhão com as demais.

6 comentários:

  1. A paz de DEUS irmão Ricardo!

    Quantos detalhes a respeito do tema abordado, dificil encontrar alguém que conheça a respeito e tem alguns que se aventuram a escrever...

    Quais suas fontes de informação Ricardo? Você tem acesso a documentos históricos da nossa igreja?

    Trocaremos informações

    DEUS te abençõe!

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  2. Amém, Helio, Deus te abençoe.
    Como ja disse em um comentário em outro artigo, prezo pela boa informação.
    Não tenho acesso a nenhum documento histórico; tudo o que tenho é fruto de pesquisas em diversas teses de mestrados que encontrei em algumas faculdades. Uma delas, é a tese que deu origem ao livro "Italianos Pentecostais", de Gloecir Bianco. A tese se encontra no acervo da Universidade Presbteriana Mackenzie, em São Paulo. Com a junção de váias informções somada ao que temos na memória coletiva, faço minhas teses.

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  3. Ta ok Ricardo entendi!

    Continue escrevendo, essas informações são importantes, estarei acompanhando seu blog!

    Hélio

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  4. Parabéns Ricardo!!Seu blog é mto bom!!Vê-se que é baseado em materiais confiáveis!!

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  5. Estimado irmão Ricardo,
    O artigo que postei no Blog "A Força da Esperança" (www.aforcadaesperanca.blogspot.com)não é de minha autoria. O autor do mesmo é o bispo anglicano Dom Robinson Cavalcanti. Não tenho nenhuma concordância com o que o mesmo escreveu acerca da CCB, igreja séria e comprometida com o evangelho genuíno, com os bons costumes e com a graça redentora de Cristo Jesus. Obrigado pelo seu comentário (que postei) e agradeço a informação acerca dos 100 anos da CC no Brasil. Em meu blog postei alguma coisa acerca desta grande data.
    Em Nome de Jesus!

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  6. Excelente artigo, parabéns!
    Te conheço da comuna da IPB, também tenho todo interesse pela história da nossa igreja!

    Um abraço!

    A Paz de Deus!

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