terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A “irmandade” da CCB


Uma sociedade é também constituída por sua linguagem. Aliás, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que a principal identidade de um povo é a linguagem.
A linguagem diz quem somos e o que queremos, até mesmo quando não usamos as palavras apropriadas.

Na Congregação Cristã, o uso da linguagem e dos discursos torna-se mais evidente uma vez que, a igreja está fortemente fundamentada na tradição oral do tipo “tribal” ou “clã estendido”, lembrando muito as grandes famílias onde os chefes são os anciãos em idade (incluem-se mulheres), responsáveis por transmitir toda a sua tradição aos mais novos de forma clara e ortodoxa. Nesse sentido, até o título “ancião” foi dado ao presbítero; até porque retoricamente falando, são eles os guardiões da tradição.

Falar de linguagem na CCB não se resume a palavras. Podemos como exemplo, citar algumas marcas que identificam seus membros, como o uso das “pastinhas” por alguns irmãos, onde, de longe se sabe que ele pertence ao grupo, pois, em geral, os homens evangélicos brasileiros costumam andar com suas bíblias nas mãos. Até mesmos as mulheres da CCB não carregam suas bíblias nas mãos. Todas usam bolsas. E, diga-se de passagem, como gostam de bolsas!

Durante meus ¼ de século dentro da CCB, não pude deixar de observar como a linguagem dentro dela tem um poder impressionante em sua identidade; por isso, propus-me a escrever sobre isto, discorrendo nas principais características do grupo, passando por razões históricas e sociais.

Do princípio de “fraternidade

A CCB não reconhece nenhuma dissidente. O fato de pessoas se desligarem dela e criar suas denominações ao seu modo, mas preservando boa parte da identidade e até mesmo da memória da igreja anterior, não qualifica suas novas denominações de dissidentes.
A CCB não é dissidente da Igreja Presbiteriana, é uma nova denominação, formada a princípio por ex-presbiterianos. Isso não é dissidência. Dissidência é o que acontece (e muito) na Assembléia de Deus, onde se cria novos ministérios e vertentes divergentes a cada dia, sem desligar-se da corrente principal.
Para um fiel da CCB, pensar em dissidência é pensar em divisão, e divisão para uma sociedade baseada na tradição do tipo clã é inaceitável.

Bases históricas nos dizem por que a CCB luta para manter-se homogênea, e seus fieis praticam a fraternidade.

No ano de 1870, o estado Italiano foi formado. A Itália é uma jovem senhora com milhares de anos de história. Antes deste evento, os povos daquela península eram conhecidos como “toscanos”, “romanos”, “calabreses”, “sicilianos”, etc. Não havia uma identidade nacional, pois não existia uma nação.
Com o advento do Estado Italiano, iniciou-se na então Itália um doloroso processo de resgate de identidade, que consistia nos interesses da burguesia e na repressão dos pobres camponeses, maioria na península e mal visto pelo resto do mundo, como um povo mal educado e violento. Essa idéia de criar um “povo italiano” culminou no desenvolvimento do Fascismo Italiano, anos mais tarde, que ao reprimir fortemente seu povo, fez com que a Itália mergulhasse em uma profunda crise social, fazendo com que seu povo se tornasse os maiores migrantes da história da Europa.
Apesar de estarem muito separados fisicamente, os imigrantes italianos em todo o mundo, gostavam da idéia de deixar de serem “calabreses”, “sicilianos”, para serem Italianos. Apesar de pobre e sem importância na Europa, os Italianos eram reconhecidos como europeus nas Américas, e isso era confortável.

Anos mais tarde, o Fascismo trabalhou fortemente dentro e fora da Itália para constituir a identidade italiana de seu povo, e, na medida em que as coisas iam acontecendo, os italianos iam aderindo a esta identidade.
Podemos citar como exemplo, a participação ativa e fundamental da Itália nas duas grandes guerras mundiais; apesar de derrotados, principalmente na segunda, fez com que os habitantes e emigrantes da península pensassem na idéia de “união”, “fraternidade”, pois só assim, o tão sonhado Estado Italiano ganharia importância política, econômica e social.

Voltando a Congregação Cristã, vamos fazer importantes análises históricas, a fim de compreender a idéia de fraternidade em seu meio, e porque ela está fortemente ligada a questão de identidade italiana, uma vez que foram eles (os italianos) que fundaram e consolidaram a denominação, deixando-a “prontinha” para os herdeiros em todo o mundo.
Como se sabe, a Congregação Cristã teve início na cidade americana de Chicago no ano de 1906. Seus primeiros integrantes eram italianos.
Nos EUA, ser italiano era mais difícil do que em qualquer outro lugar do mundo. Em primeiro lugar, eram católicos, em um país que na ocasião eram protestantes quase que por unanimidade. Pior que isso, eram protestantes anti-católicos, pois os EUA foram formados também a partir de uma fuga da perseguição da Igreja Católica aos protestantes ingleses convertidos. Além da questão religiosa, vem a questão social; os povos da então península que mais tarde seria Itália, já eram mal vistos pelos ingleses, e essa idéia partiu com eles para o novo mundo. Além disso, com o advento da Máfia (Mathers and Fathers Italian Association) e suas constantes investidas no mercado do crime nos EUA proporcionaram um desgaste ainda maior na identidade Italiana nesse país. Devemos lembrar que até hoje, mesmo sendo um dos povos mais ricos e charmosos do mundo, falar de Itália é lembrar da Máfia e de All Capone.
Pois bem, fatos como estes, fizeram com que os italianos no mundo fortalecessem seus laços, deixando as velhas intrigas regionais para trás e adotando a “cidadania do povo italiano”. Isso foi claramente percebido entre os italianos da Assemblea Cristiana di Chicago, depois no contato de Louis Francescon com os italianos do Brasil, onde a característica de “italianidade” é percebida até hoje.
Passados cem anos, muitas características deste rico movimento cultural italiano ainda são percebidas dentro da denominação. Como já citei, a idéia de dissidência é abortada, pois remete a desunião e rebeldia, fortemente combatidasno século XX, com o fascismo.

Outras características também são importantes e relevantes; por exemplo, os italianos, em geral, costumam ser mais ortodoxos em questão de fé. Lembramos que boa parte das mulheres católicas italianas ainda utiliza o véu na igreja, quesito que no acidente foi abandonado há bastante tempo. Na Congregação Cristã, principal denominação dos descendentes italianos evangélicos, essa questão é doutrinária. Outro ponto é a questão da separação dos sexos dentro dos templos e celebrações. Não é prática apenas da Congregação Cristã, na Itália, em alguns lugares, católicos ainda fazem uso desta prática, e ainda, no sul do Brasil, algumas congregações católicas de origem étnicas também fazem uso, segundo pesquisas do Dr. Key Yuasa, pastor da Igreja Evangélica Hollines do Brasil e Doutor em Teologia, que empreitou grande pesquisa sobre a vida e obra de Louis Francescon, atualmente em fase de tradução para o português.
Não podemos deixar de observar, como os membros da Congregação Cristã se relacionam na sociedade. Sempre se dá atenção especial aos “irmãos de fé”. Em cidades pequenas, ainda é possível encontrar pessoas que só comercializam com os irmãos da igreja, ainda que em desvantagem, apenas pelo fato de ser do mesmo grupo religioso. De onde vem esta idéia? Dos italianos.

Querem mais exemplos? “Obra da piedade”, paixão por musica sacra, visitas a famílias, visitas de grupos a outras cidades, etc.

A lista é grande, mas, certamente, existe uma palavra que define a fraternidade na Congregação Cristã; esta palavra foi traduzida para o português e é utilizada a todo o momento pelos seus membros: “irmandade”, que vem de fraternidade. É tão nosso, que muito pouco vejo outros grupos de outras denominações utilizarem.


Ricardo Oliveira

7 comentários:

  1. Poucos se prontificam a escrever sobre a Congregação Cristã no Brasil a partir de uma ótica histórica, sem pré-conceitos ou julgamentos!
    Gostei de ler seu texto.

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  2. Poucos se prontificam a escrever sobre a Congregação Cristã no Brasil a partir de uma ótica histórica, sem pré-conceitos ou julgamentos!
    Gostei de ler seu texto.

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  3. Paloma

    Obrigado por comentar!

    Este é o meu fiel objetivo. As pessoas que digtarem "CCB" no Google, querendo informações sobre a igreja, tem que encontrar algo consistente para ler. Estou trabalhando por isso.
    Um Abraço!

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  4. Irmao Ricardo a Paz de DEUS!

    Meu nome é Hélio, escrevo sobre a CCB também, porem em estilo diferente... Estive presente no encontro apologético assim como voce. De uma passada no meu blog, avalie o conteudo e me mande um email, gostaria de saber sua opiniao.

    DEUS te abençõe, trocaremos informações

    Hélio

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  5. Eu não tinha lido o texto ainda, acabei de ler, muito bom!

    Essas são as origens históricas mas há também a caridade de DEUS no coração dos membros... Mas isso é outra história...

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  6. Parabéns Ricardo pelo conteúdo do texto, pela idéia e a forma que usou para escreve-lo, até mesmo os menos interessados nesses assuntos acabam se envolvendo na leitura.

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  7. Prometi que viria conhecer teu blog... Eu tardo mas não falho... Hehehe.
    Estava salvo em 'favoritos' e hoje tive tempo e oportunidade de conhecer/ler teu espaço.
    Gostei da abordagem imparcial, da linguagem utilizada, do estilo de escrever.
    Deus que o abençoe. Pretendo voltar outras vezes...
    Ah...
    Só uma coisa pra reclamar; tem poucas postagens... Hehehe. Tomara que vc tenha tempo pra escrever mais!!
    Sara

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