terça-feira, 29 de junho de 2010

A “Meia-Hora”: Introdução ao silêncio!


A “Meia-Hora” na Congregação Cristã é um intervalo de vinte minutos antes do “Hino do Silêncio” onde uma organista interpreta os hinos do hinário em andamento “largo”.

Ao contrário do que muitos pensam, a “Meia-Hora” não é um estágio onde organistas iniciantes praticam seu aprendizado. Após conhecer um pouco sobre essa prática litúrgica, verão porque defendo que apenas organistas oficializadas deveriam praticá-la. Por hora vamos tentar compreender o significado, ou melhor, a necessidade da “Meia-Hora” nos eventos sacros dentro da igreja.

Geralmente, os portões da congregação são abertos uma hora antes do início de qualquer serviço sacro. É comum virmos que há pessoas que ficam esperando eles serem abertos, ou seja, chegam com mais de uma hora de antecedência ao culto, até mesmo nas Terças-Feiras. Obviamente são pessoas idosas. No entanto, é com, aproximadamente, trinta minutos antes dos cultos que a massa começa a chegar para o mesmo. Se repararmos bem, e por alguns dias pôr atenção nisso, dá para saber que cada “nicho”, digamos assim, chega sempre em seu horário costumeiro. Vamos usar como exemplo um tradicional culto paulistano de domingo: Os idosos sempre são os primeiros (das 06h30 às 07h00), seguido por alguns músicos responsáveis (das 07h00 às 07h15), que precisam chegar a tempo de se organizar; depois chega a maioria da irmandade, homens com suas mulheres e crianças (das 07h10 às 07h25); e, por fim, chegam os jovens: geralmente começam a chegar durante a execução do “Hino do Silêncio” e até o “amém” final pode ser que ainda chegue algum.

Pois bem, neste intervalo, vejam o que temos: Os idosos saudando e falando com todos dentro da nave da igreja ou nos corredores externos, geralmente em voz alta, pois já estão com a audição prejudicada, e gostam de ouvir a própria voz para ter certeza que o outro também ouviu. Os músicos fazem barulhos ao se acomodar em seus bancos com os estojos dos instrumentos, ao tirar os instrumentos e os “pendurarem” e, alguns deles, ainda os afinam. Fora a conversa com os amigos da “classe” instrumental que representam. As famílias que vem após, com suas mulheres e crianças eufóricas, que antes de se acomodarem, vão até os sanitários e já providenciam papel para passar o culto desenhando neles; sem falar nos que trazem copos descartáveis com água para dentro da igreja. Ainda temos os bebês, que, neste horário, costumam passar de mãos em mãos das irmãs que insistem em segurá-los um pouco ali mesmo, antes, durante e depois do culto. Aí chegam os jovens! A situação costuma ser complicada se o futebol de domingo foi às 16h00 neste dia.

Como vimos, o espaço de culto vai além de sua finalidade principal. É lugar de integração, interação, encontros e reencontros. Não dá para evitar isso, principalmente na cultura latina e, sobretudo, na realidade protestante, onde o coletivismo e a fraternidade são incentivados a todo o momento. Mas, ainda assim, é preciso manter a reverência na igreja, ainda que sob alguns sacrifícios. Se o silêncio é a introdução a reverência, a “Meia-Hora” é a introdução ao silêncio.

Andando por aí e conversando com algumas organistas da minha comum, fui informado de que, geralmente, são duas as formas de interpretar os hinos na “Meia-Hora”: Em ambas, deve ser entoado em compasso largo e em volume moderado; ora conservam-se os mesmos valores ora prolonga-se a nota referente à última frase da estrofe. Segunda elas, pode-se também, na mesma estrofe, promover uma elevação de oitava, ou seja, passando do normal para uma oitava acima. Todavia o hino não deve ficar irreconhecível.

Com essas interpretações, a música ganha uma característica melancólica. Sendo tocada lentamente e com suavidade, força os ouvidos a atentarem para ouvi-la, e a conseqüência é o silêncio, com ele a reverência e a comunhão. Ao ouvir o som da música na “Meia-Hora”, o fiel deve imediatamente procurar fazer menos movimento possível. Deve se acomodar em seu lugar e fizer sua oração particular. Depois pode fazer a tradicional leitura bíblica em silêncio ou acompanhar os hinos com o hinário, mas sem cantar, ou “resmungar” a melodia. À medida que outros fiéis vão se achegando, percebendo o silêncio e a reverência, se cuidarão para entrar neste clima.

Deve-se resgatar esta ordem. O silêncio na igreja é algo fundamental para sua idoneidade. E é algo que os protestantes, em geral, estão abandonando, desde os mais tradicionais aos neo-pentecostais, que costumam regular a bateria da banda um pouco antes do culto. Precisamos aprender com os católicos, pois, salve exceções, sabem guardar o silêncio na igreja. Na Congregação Cristã, algo que é sempre elogiado por pessoas que visitam a igreja são a “ordem”, o silêncio e a reverência nos cultos; isso deve ser sempre lembrado a irmandade. Pouco se fala em manter o silêncio nos cultos.

Convido os leitores a experimentarem mais a fundo este rico recurso que possuímos: a “Meia-Hora”. Cheguem mais cedo à igreja. Prestem bastante atenção na música e no andamento. Observem tudo em silêncio. Após a “Meia-Hora”, acompanhem o “Hino do silêncio” e depois participem do culto. Certamente notarão a diferença. Cultivem a integração e o bom papo depois do culto. No culto, prestigiem o silêncio ao som de uma boa “Meia-Hora”.

Ricardo Oliveira

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A música Sacra: A música de Deus




A música sacra é, de longe, a música de Deus. Poderá as pessoas perguntar: E Deus lá tem música? Não. A resposta é: Não! Deus não compôs nenhuma música, e nem recomendou alguma. São as pessoas que podem ou não atribuir as canções sacras à natureza celestial, e, já desde os tempos do Velho Testamento bíblico nota-se a inclinação do povo de Deus para ela.



Neste singelo artigo, tentarei mostrar aos caros leitores, a resistência desta magnífica obra de arte que ultrapassou os séculos e impressiona os ouvidos mais sensíveis e ainda arranca lágrimas dos mais duros homens.




Do conceito de música aplicado ao sacramento
Primeiramente, vamos recordar o conceito do que é música:
É a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma, mediante o som.
Pois bem; com isso já sabemos que: A música é uma arte feita com sons, usada para manifestar os diversos afetos da alma humana. Assim sendo, quando o cachorro late ou um pássaro se agita ao ouvir uma música alta, é simplesmente o som que está impressionando seus ouvidos, não uma correspondência pelo que sentem em si. Animal não tem sentimentos. Logo, podemos afirmar que apenas homens sabem reconhecer uma música. Podemos ir mais a fundo: Deus, que fez a única criação deste mundo com suas próprias mãos, os abençoou de profunda sensibilidade para adorá-lo com perfeição.

Para se ter uma música, é preciso: Melodia, Harmonia e Ritmo e Andamento.
Para a música sacra, os elementos acima se tornam mais evidentes e característicos, pois, para que o teor sacro seja destacado, é preciso que seja “aclamado”, ou seja, a música sacra precisa ter uma característica de devoção, gratidão, aclamação e comoção. Assim sendo, a melodia da música deve ser simples e bem elaborada; a harmonia deve ser destacada, mas nunca superando a melodia; e, por fim, o ritmo, que assegura todo o teor, não deixando, como exemplo, que a música sacra se torne uma valsa. Não podemos esquecer-nos do andamento do som, que para a música sacra deve ser suficientemente regulado, para que a harmonia seja sentida.

Do conceito de “aclamação”
Nem todas as músicas cristãs são sacras.

Para que a música seja sacra, é preciso obedecer algumas regras básicas, como segue: A entonação deve ser por voz humana ou instrumentos que possuem som característico nasal (como o trombone), para que o teor de “aclamação” seja evidenciado. Deve dar a impressão de choro, lamentação ou profunda gratidão, pois deve remeter ao respeito e reverência. Não é por acaso que os Hinos Nacionais ou até mesmo Hinos de Clubes Esportivos tem entonação sacra, pois ao ser entoado deve arrancar dos ouvintes o máximo de respeito devido, com postura corporal educada e total respeito à letra.

Se a música é cantada, a letra deve obedecer a critérios ortodoxos de regras de linguagem, acentuação e colocações, pois, o objeto a quem se oferece o som deve ser algo de respeito mútuo. Para a música sacra cristã, o cuidado deve ser dobrado. Na música sacra, que por sinal é a primeira e autêntica música cristã, a letra das poesias devem ser totalmente desprendidas de vaidades pessoais e irreverências. Devem ser orações, salmos e louvores plenamente baseados na bíblia, manual de conduta universal dos cristãos. Não se pode como exemplo, pedir riquezas ou fazer louvores a Deus como se tivessem elogiando um amante. A poesia pode profanar a música, por mais perfeita que ela seja, caso não seja perfeitamente elaborada.
A letra de uma música deve estar afinadíssima com sua melodia. Na música sacra isso deve ser plenamente respeitado.

Da composição dos conjuntos e/ou orquestras
Para um conjunto, ou orquestra sacra, os critérios de composição dos instrumentos devem ser observados. A base de uma orquestra sacra é, indiscutivelmente, os instrumentos de bocais (trompetes, trombones, trompas), pois dão característica nasal ao som e possuem entre si, profunda relação de afinação. Outros instrumentos podem compor uma orquestra sacra, como cordas e palhetas (em menor quantidade), mas, o excesso de alguns deles poderiam causar transformações na música, como Jazz para o excesso de palhetas. Pianos, percussões e qualquer outro instrumento que “picote” o som deve ser evitado, pois a música sacra deve ser com sons contínuos, para valorizar a harmonia. Instrumentos de palhetas duplas (oboé, fagote, corne inglês ) podem e devem compor, pois além de possuir o som nasal, é excelente para eventuais solos e auxiliam na afinação. Acordeões e família dão ao conjunto um som aveludado. Se utilizado corretamente, embeleza a música sacra; do contrário, a destrói. O órgão é muito bem-vindo! Sozinho, aperfeiçoa o canto congregacional ou o coral, além de auxiliá-los. O órgão é capaz de preencher todo o espaço vazio em uma deficiência de vozes ou instrumentos, além de ser o ícone da tradição sacra. Mas, atenção: Se for de tubos, deve estar sempre regulado, e os tubos impecavelmente limpos, para garantir o som perfeito; e se for eletrônico, desde que seja de boa qualidade, deve também estar em perfeita regulação, pois esse tipo de órgão pode ser usado para acompanhar qualquer tipo de ritmo, desde o citado sacro ao rock, passando pelo jazz, que é muito comum no sul dos EUA, para acompanhar os corais que tem alto teor da típica música afro-americana.

Da relação Igreja Cristã x Música Sacra
Embora algumas pessoas afirmem a música sacra não é herança do judaísmo. Pode ser semelhante em pouquíssimos aspectos, mas não se origina nele. Embora se perceba que nos salmos sempre é recomendado o uso de instrumentos típicos da cultura e época, pode-se observar neles mesmos uma distanciação do que é sacro. Tambores, como exemplo, eram constantemente utilizados. A música sacra surgiu, provavelmente, na fusão do cristianismo com o Império Romano. Parte dos instrumentos que compõe hoje uma autêntica orquestra sacra, se originou na Europa, e não podemos nos esquecer, de que os Italianos (Romanos, até então) são bem inclinados a música erudita, da qual a sacra é filha. Talvez, fosse por este motivo, que desde os primeiros anos da era cristã, onde a participação da Itália é indiscutivelmente fundamental, a música sacra ganhou prestígio; não podemos nos esquecer de que toda a tradição cristã se origina dos pagãos e gentios convertidos. Será que se o cristianismo fosse consolidado no oriente teríamos essa herança? Com certeza não.

Eu sei que vocês devem estar indagando: Nossa, quer dizer que a música sacra, que o autor chama de Música Divina, é de origem pagã? Não! Não é isso. E ainda que fosse não contrariaria. Primeiro porque o cristianismo rompeu com tradições hebraicas, portanto, não teve a obrigação de carregar a cultura deles, e isso é recomendado, e muito, pelo Apóstolo São Paulo (vide cartas aos Romanos). Sobretudo, devemos nos atentar a uma mudança radical que transformou o conceito de louvor na nova igreja, e isso fundamentou o teor da música sacra: O homem passava, a partir de então, a dar diretamente a Deus o seu louvor, assim como pedir a Ele os seus devidos perdões além de Lhe dar sacrifícios de louvores, sem precisar da intermediação de um sacerdote. E não podemos esquecer também, que o Espírito Santo consolador, prometido por Jesus Cristo, agora faz parte da igreja, habitando em cada um dos fiéis.
Pronto! A fórmula está perfeita: Temos uma música simples e tocante somado à aproximação do homem com Deus e a efusão do Espírito Santo, que toca o interior.

Das diferenças entre Música Sacra e outras músicas cristãs
Não estou aqui para dizer que outras formas de louvores são inválidas. Longe de mim este mal! Não podemos dizer que Deus rejeita outras formas, pois, ninguém conhece os sentimentos de Deus. Todavia, a forma de louvar a Deus não parte de Deus para o homem, e sim do Homem para Deus. A manifestação humana de louvor, nada mais é do que a demonstração daquilo que sua alma sente realmente.

No entanto, sou um defensor irredutível da música sacra, principalmente se o ambiente é dentro de uma igreja cristã. Já demonstrei acima que a música sacra conduz a reverência, ao respeito, a subordinação total a Deus e ao reconhecimento da soberania divina. Ninguém que ouve uma música sacra na igreja, ou até mesmo ajuda a produzi-la (cantando ou tocando) sente a necessidade de dar pulos ou levar as mãos ao alto, para um lado ou outro. A música sacra não permite isso. É como água e óleo. Não misturam! Ao ouvir ou participar de um momento de música sacra, a nossa própria mente se concentra para prestar atenção nas combinações harmoniosas, e isso favorece o entendimento da poesia, que deve ser impecavelmente ortodoxa a bíblia, e então, damos glórias a Deus, porque efetivamente a música teve seu papel na nossa vida: Ouvir a voz divina, doce e suave, como Ela é.

Se o louvor é feito como Canto Congregacional, auxiliado por órgão ou orquestra, a música ganha uma característica ainda mais nobre e cristã: Igualdade! Sim, por que no canto congregacional, não se conhece quem canta bem ou não; afinado ou não. O som que se obtém é unânime, e aí poderá ser perfeito por si só, ou não. Se o órgão ou orquestra auxilia, os vazios e deficiências de tonalidade são preenchidos, e então temos um som perfeito, onde todos produziram; logo, o clima é de unanimidade, igualdade e prazer interpessoal.

Quanto às outras formas de música cristã, resumem-se a “popularização”. O impacto que o homem sente com a música sacra, exatamente por ser uma música típica de igrejas cristãs, não é sentido nestes louvores, porque não há àquela fronteira entre o mundo e a igreja (neste sentido). Se o impacto sentido com o contato da música sacra produz “silêncio” e reverência, não havendo impacto, restam apenas movimentos corporais típicos de um momento qualquer, dentro ou fora da igreja. Além do mais, as poesias das músicas cristãs populares, sempre pendem para o individualismo, ao louvor com palavras irreverentes e a busca por coisas concretas. Ainda assim, temos o agravante do som metálico ou acústico, cantores solos ou bandas, fazendo com que a congregação aprecie, mas nunca participe. As músicas populares cristãs, ou músicas Gospel, como são mais conhecidas, sempre deixam aquela dúvida: Estou com meu espírito feliz porque algo me tocou ou estou em transe emocional pelas batidas da bateria combinadas com o ritmo da guitarra? Não é por acaso que as coreografias surgiram nos cultos evangélicos; a musicalidade gospel permite isso. E isso tem gerado profundas controvérsias no meio, pois a impressão que se dá, é de um show com artistas e não a casa onde apenas se louva a Deus.

Da sobrevivência da Música Sacra
Eu vou começar este parágrafo com uma pergunta grosseira, imprópria, mas perfeita para demonstrar o que quero aqui: O que é música de velho? Erudita ou Jovem Guarda? Se fizesse uma enquete, acho que teríamos 95% das respostas para a “Jovem” Guarda. Mas: A música sacra não tem aproximadamente dois mil anos? E a Jovem Guarda não estourou em 1950? Sim, entre uma e outra temos quase dois milênios. Mas é aí que está. A música erudita, além de não ser muito difundida, é sempre nova pela genialidade de seus mestres. Ainda bem que é assim, do contrário seria popular, como foi a Jovem Guarda, e então, aí sim poderíamos perdê-la, como se perdeu a Jovem Guarda. Tudo o que é popular se vai. O homem precisa de um momento de refúgio em todos os aspectos. Todos precisam se desligar por algum momento de sua sociedade, de seu tempo, para que ele consiga viver nela e nele, respectivamente.

Levando isso para dentro da música sacra, podemos evidenciar ainda mais essa necessidade: Além da igreja, que deve consistir em uma fronteira entre o mundo e graça, entre o sagrado e o profano, temos que dar a ela características para essa notória (ou não) fronteira.
A igreja deve ser como o “pasto verdejante”, onde as ovelhas cansadas recorrem para obter pleno descanso, após passar pelo “vale da sombra da morte”. E se a igreja não proporcionar isso, como mostrar luz ao mundo?

A música sacra da ao ambiente um teor santo, de refúgio, de sombra e amparo. E é por isso que ela tem dois mil anos e terá muito mais, e melhor, terá continuidade no Reino de Deus, e nunca será velha, como a “Velha Guarda”, pois, sempre haverá os refugiados buscando sombra em um mundo desértico.

Soli Deo Gloria!!!

terça-feira, 30 de março de 2010

A Congregação Cristã e o Presbiterianismo


Poucos sabem, mas quando Louis Francescon se desligou da Primeira Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, se tornou congregacionalista radical.

O congregacionalismo, em tese, não deveria impactar em grandes desvios doutrinários; a fórmula congregacional de uma instituição se baseia no princípio de que a igreja local é totalmente autônoma, em questões administrativas, culturais e comportamentais, não se subordinando a nenhuma organização superior a ela.

É possível imaginar porque Francescon se apaixonou pela matriz congregacionalista: Ele conhecera o Presbiterianismo, e junto a ele, todo o seu burocrático sistema. Vou tentar mostrar neste artigo, o que fez com que ele aderisse ao congregacionalismo radicalista nos EUA e, não muito tempo depois, se desiludiu com o mesmo, voltando a creditar ao presbiterianismo. Aliás, vale observar, que ele “aprendeu” nos EUA e aplicou aqui no Brasil, pois, não podemos negar que ele era um missionário ainda inexperiente.

A matriz da Igreja Presbiteriana, assim como na Congregação Cristã, é baseada fortemente em conselhos de presbíteros (hoje, pastores para a IP e Anciãos para a CC); pequenos conselhos formam um presbitério que, juntos, formam um sínodo que, por sua vez reunidos, formam o Supremo Concilio. Francescon teve contato com este sistema em sua primeira denominação como membro. A principal base do presbiterianismo é opor-se ao episcopado, criado pela Igreja Católica e copiado pelas igrejas Anglicanas e Metodistas, respectivamente, que, na ocasião da efervescência espiritual nos EUA estavam entre as principais denominações. Embora não se tem nada em mãos sobre o que Francescon dizia do presbiterianismo, é possível imaginar sua desilusão com o mesmo: Ele foi primeiro Diácono e depois Presbítero, que também exerce a função de tesoureiro. Ninguém melhor do que um ex-diácono e presbítero para saber dos problemas burocráticos de um sistema eclesial. Um dos grandes problemas que Francescon enfrentou na recente Igreja Presbiteriana Italiana foi com relação ao repasse de verbas provenientes dos dízimos dos fiéis. Repassava-se uma quantidade, que se fosse aplicada a igreja local, seria mais bem aproveitada, pois, era uma igreja com aproximadamente quarenta membros recém convertidos, pobres e imigrantes, quase que incapazes de se auto-sustentarem, além, é claro, do alto salário do pastor, pago pela associação, que por sua vez tirava dos repasses.

Outro grande problema que Francescon teve com o presbiterianismo Foi com relação à reação da igreja a sua revelação acerca do batismo por imersão. A Igreja Presbiteriana sempre batizou por aspersão ou efusão, nunca por imersão. Como presbítero, Francescon se encontrou sem o mínimo de autonomia para assuntos doutrinários; tanto é que ao invés de insistir no assunto, preferiu desligar-se, quando fora batizado por imersão.

Evidentemente, outros fatores contribuíram para que Louis Francescon passasse a observar a fundo o congregacionalismo: os membros presbiterianos de origem valdense e o pregador autônomo Michelli Nardi. Sabemos que os Valdenses andavam pelas montanhas da Itália desprovidos de qualquer sistema eclesiástico ou estatutos. Quanto a Michelli Nardi, havia se desligado da Italian Evangelical Church por razões pessoais e estava se dedicando a pregação espontânea e autônoma do evangelho, no qual, alcançou Francescon, e tornou-se depois seu modelo de missionário.

Após a formação da Assemblea Cristiana di Chicago e sua consolidação, diversos membros tornaram-se missionários, incumbidos de levar testemunho de sua fé e crença a seus familiares, amigos e patrícios, espalhados pelos EUA, América do Sul e Itália. Antes mesmo da igreja se consolidar no Brasil, como exemplo, ela já havia chegado a diversas colônias italianas americanas, de norte a sul, leste a oeste, cada qual com sua própria autonomia administrativa, como idealizara Francescon.

Entre as décadas de 10 e 20, ocorreram fatos que mudaram os destinos das congregações independentes nos EUA. Enquanto Francescon se ocupava com a próspera obra no Brasil, influências foram provocando desvios doutrinários nas igrejas americanas. Tanto, que em sua autobiografia, Francescon diz: “(...) sempre que voltava a América do Norte, encontrava novidades entre os irmãos, diferente do que aprenderam no princípio.” Todavia, o que o entristeceu profundamente foi o fato de muitas congregações italianas locais terem se filiado a organizações evangélicas diversas, ou seja, se evitava o burocrático sistema presbiteriano a fim de conceder livre ação do Espírito Santo à igreja local, porque se filiar a outras organizações que em nada tinham a ver com as igrejas do movimento pentecostal italiano? Acontecido esse fato, Francescon tentou, tardiamente, criar um conselho, ainda que com pouca autonomia, em 1927, onde foi definido os 12 artigos de fé e aceito pela maioria das igrejas provenientes do “Movimento Italiano”. Apesar da adesão a Confissão de Fé, os desvios doutrinários eram evidentes, e isso fez com que Francescon se isolasse, cooperando com algumas pequenas congregações locais, com a (já) Congregazione Cristiana di Chicago e com a Congregação Cristã no Brasil.

Eu sei, os leitores devem estar se perguntando: Porque as igrejas no Brasil aderiram ao presbiterianismo radical, como se opunha Francescon? A resposta é bem simples: Porque ele aprendeu nos EUA e aplicou aqui. Notem que até 1930, as igrejas no Brasil eram plenamente étnicas e voltadas em sua maioria para as colônias paulistas. Ainda que existissem igrejas em outros lugares, o atendimento a elas era feito por anciões de São Paulo, logo, não se experimentou o congregacionalismo. Francescon fez menção ao crescimento material e espiritual com certa “empolgação” em sua autobiografia, e ainda acrescentou: “A cidade de São Paulo possui uma administração formada por Presidente, Secretário e Tesoureiro, incumbidos pela parte material, além de um conselho de anciãos que se reúnem semanalmente na casa de oração do Brás para buscar a guia de Deus e tratar de assuntos relacionados às igrejas locais”.
O que se observa, é que se evitou no Brasil o que aconteceu nos EUA. Não houve tempo e brechas para desvios doutrinários entre as igrejas locais ou mesmo incompatibilidade administrativa. Por outro lado, a insistência em sempre buscar o conselho de Deus para qualquer decisão, evitou que a burocracia sistemática presbiteriana prevalecesse. Neste caso, a CCB está organizada no sistema eclesial presbiteriano, mas com o mínimo de burocracia possível. De repente, Francescon observou que, submetendo-se ao máximo à vontade de Deus, o Espírito Santo teria livre curso nas igrejas, mas respeitando-se ao teor doutrinário e a ordem administrativa. Não podemos negar que, de forma geral, isso tem prevalecido.

Anos mais tarde, em 1980, o presbiterianismo foi restaurado em algumas congregações americanas independentes, com a adesão de três igrejas: Corona, Chicago e Los Angeles. Hoje já são mais de cem congregações e pontos de pregação que integram a Christian Congregation in the United States, além da Christian Congregation of Chicago, que permanece congregacionalista irredutível, apesar de estar em comunhão com as demais.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A “irmandade” da CCB


Uma sociedade é também constituída por sua linguagem. Aliás, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que a principal identidade de um povo é a linguagem.
A linguagem diz quem somos e o que queremos, até mesmo quando não usamos as palavras apropriadas.

Na Congregação Cristã, o uso da linguagem e dos discursos torna-se mais evidente uma vez que, a igreja está fortemente fundamentada na tradição oral do tipo “tribal” ou “clã estendido”, lembrando muito as grandes famílias onde os chefes são os anciãos em idade (incluem-se mulheres), responsáveis por transmitir toda a sua tradição aos mais novos de forma clara e ortodoxa. Nesse sentido, até o título “ancião” foi dado ao presbítero; até porque retoricamente falando, são eles os guardiões da tradição.

Falar de linguagem na CCB não se resume a palavras. Podemos como exemplo, citar algumas marcas que identificam seus membros, como o uso das “pastinhas” por alguns irmãos, onde, de longe se sabe que ele pertence ao grupo, pois, em geral, os homens evangélicos brasileiros costumam andar com suas bíblias nas mãos. Até mesmos as mulheres da CCB não carregam suas bíblias nas mãos. Todas usam bolsas. E, diga-se de passagem, como gostam de bolsas!

Durante meus ¼ de século dentro da CCB, não pude deixar de observar como a linguagem dentro dela tem um poder impressionante em sua identidade; por isso, propus-me a escrever sobre isto, discorrendo nas principais características do grupo, passando por razões históricas e sociais.

Do princípio de “fraternidade

A CCB não reconhece nenhuma dissidente. O fato de pessoas se desligarem dela e criar suas denominações ao seu modo, mas preservando boa parte da identidade e até mesmo da memória da igreja anterior, não qualifica suas novas denominações de dissidentes.
A CCB não é dissidente da Igreja Presbiteriana, é uma nova denominação, formada a princípio por ex-presbiterianos. Isso não é dissidência. Dissidência é o que acontece (e muito) na Assembléia de Deus, onde se cria novos ministérios e vertentes divergentes a cada dia, sem desligar-se da corrente principal.
Para um fiel da CCB, pensar em dissidência é pensar em divisão, e divisão para uma sociedade baseada na tradição do tipo clã é inaceitável.

Bases históricas nos dizem por que a CCB luta para manter-se homogênea, e seus fieis praticam a fraternidade.

No ano de 1870, o estado Italiano foi formado. A Itália é uma jovem senhora com milhares de anos de história. Antes deste evento, os povos daquela península eram conhecidos como “toscanos”, “romanos”, “calabreses”, “sicilianos”, etc. Não havia uma identidade nacional, pois não existia uma nação.
Com o advento do Estado Italiano, iniciou-se na então Itália um doloroso processo de resgate de identidade, que consistia nos interesses da burguesia e na repressão dos pobres camponeses, maioria na península e mal visto pelo resto do mundo, como um povo mal educado e violento. Essa idéia de criar um “povo italiano” culminou no desenvolvimento do Fascismo Italiano, anos mais tarde, que ao reprimir fortemente seu povo, fez com que a Itália mergulhasse em uma profunda crise social, fazendo com que seu povo se tornasse os maiores migrantes da história da Europa.
Apesar de estarem muito separados fisicamente, os imigrantes italianos em todo o mundo, gostavam da idéia de deixar de serem “calabreses”, “sicilianos”, para serem Italianos. Apesar de pobre e sem importância na Europa, os Italianos eram reconhecidos como europeus nas Américas, e isso era confortável.

Anos mais tarde, o Fascismo trabalhou fortemente dentro e fora da Itália para constituir a identidade italiana de seu povo, e, na medida em que as coisas iam acontecendo, os italianos iam aderindo a esta identidade.
Podemos citar como exemplo, a participação ativa e fundamental da Itália nas duas grandes guerras mundiais; apesar de derrotados, principalmente na segunda, fez com que os habitantes e emigrantes da península pensassem na idéia de “união”, “fraternidade”, pois só assim, o tão sonhado Estado Italiano ganharia importância política, econômica e social.

Voltando a Congregação Cristã, vamos fazer importantes análises históricas, a fim de compreender a idéia de fraternidade em seu meio, e porque ela está fortemente ligada a questão de identidade italiana, uma vez que foram eles (os italianos) que fundaram e consolidaram a denominação, deixando-a “prontinha” para os herdeiros em todo o mundo.
Como se sabe, a Congregação Cristã teve início na cidade americana de Chicago no ano de 1906. Seus primeiros integrantes eram italianos.
Nos EUA, ser italiano era mais difícil do que em qualquer outro lugar do mundo. Em primeiro lugar, eram católicos, em um país que na ocasião eram protestantes quase que por unanimidade. Pior que isso, eram protestantes anti-católicos, pois os EUA foram formados também a partir de uma fuga da perseguição da Igreja Católica aos protestantes ingleses convertidos. Além da questão religiosa, vem a questão social; os povos da então península que mais tarde seria Itália, já eram mal vistos pelos ingleses, e essa idéia partiu com eles para o novo mundo. Além disso, com o advento da Máfia (Mathers and Fathers Italian Association) e suas constantes investidas no mercado do crime nos EUA proporcionaram um desgaste ainda maior na identidade Italiana nesse país. Devemos lembrar que até hoje, mesmo sendo um dos povos mais ricos e charmosos do mundo, falar de Itália é lembrar da Máfia e de All Capone.
Pois bem, fatos como estes, fizeram com que os italianos no mundo fortalecessem seus laços, deixando as velhas intrigas regionais para trás e adotando a “cidadania do povo italiano”. Isso foi claramente percebido entre os italianos da Assemblea Cristiana di Chicago, depois no contato de Louis Francescon com os italianos do Brasil, onde a característica de “italianidade” é percebida até hoje.
Passados cem anos, muitas características deste rico movimento cultural italiano ainda são percebidas dentro da denominação. Como já citei, a idéia de dissidência é abortada, pois remete a desunião e rebeldia, fortemente combatidasno século XX, com o fascismo.

Outras características também são importantes e relevantes; por exemplo, os italianos, em geral, costumam ser mais ortodoxos em questão de fé. Lembramos que boa parte das mulheres católicas italianas ainda utiliza o véu na igreja, quesito que no acidente foi abandonado há bastante tempo. Na Congregação Cristã, principal denominação dos descendentes italianos evangélicos, essa questão é doutrinária. Outro ponto é a questão da separação dos sexos dentro dos templos e celebrações. Não é prática apenas da Congregação Cristã, na Itália, em alguns lugares, católicos ainda fazem uso desta prática, e ainda, no sul do Brasil, algumas congregações católicas de origem étnicas também fazem uso, segundo pesquisas do Dr. Key Yuasa, pastor da Igreja Evangélica Hollines do Brasil e Doutor em Teologia, que empreitou grande pesquisa sobre a vida e obra de Louis Francescon, atualmente em fase de tradução para o português.
Não podemos deixar de observar, como os membros da Congregação Cristã se relacionam na sociedade. Sempre se dá atenção especial aos “irmãos de fé”. Em cidades pequenas, ainda é possível encontrar pessoas que só comercializam com os irmãos da igreja, ainda que em desvantagem, apenas pelo fato de ser do mesmo grupo religioso. De onde vem esta idéia? Dos italianos.

Querem mais exemplos? “Obra da piedade”, paixão por musica sacra, visitas a famílias, visitas de grupos a outras cidades, etc.

A lista é grande, mas, certamente, existe uma palavra que define a fraternidade na Congregação Cristã; esta palavra foi traduzida para o português e é utilizada a todo o momento pelos seus membros: “irmandade”, que vem de fraternidade. É tão nosso, que muito pouco vejo outros grupos de outras denominações utilizarem.


Ricardo Oliveira